terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

À frente de seu tempo


Sentia-se importante. Carregava com seu corpo esguio um olhar altivo, quase soberbo. Saia à rua sempre ao mesmo horário, com chuva ou sol, assoviando alguma canção da
época de ouro do rádio. Vicente Celestino e Orlando Silva eram seus favoritos. Chapéu Panamá, bengala de nogueira, trajes claros no verão e escuros no inverno, um relógio de bolso antiquíssimo, presente de seu avô - máquina suíça, montagem alemã - jamais precisou ajustar.

Era assim que ele saia pontual para o Café São Cristóvão, todas as manhãs, para encontrar 
sempre os mesmos amigos e debater sempre os mesmos temas, variando a entonação de acordo com o humor do dia e com os acontecimentos da véspera, divulgados no periódico local O Correio do Povo e devorados em casa. Saia munido.

No caminho ia topando pessoas um tanto atabalhoadas, a resmungarem coisas que a ele não chegavam a interessar, apenas deduzia que não passavam de lamentações e promessas de quem vive atrasado.

Naquela manhã, junto ao balcão lustrado por cotovelos bem vestidos, ele propôs um assunto novo: A falta de pontualidade daquela gente toda, incluindo seus colegas do café, a quem sugeriu uma mudança de hábito, por respeito a ele próprio e ao seu relógio suíço-alemão.

Foi necessária uma dúzia de dias para que ele aceitasse a verdade retumbante que lhe caíra sobre a cabeça e ombros, e lhe escorrera por todo seu corpo esguio. Andou, desde que recebeu o presente de seu avô, dezoito minutos adiantado.

2 comentários:

  1. kkkkkkkkkkk! Inesperado e engraçadíssimo! (opss! era para ser engraçado?!) Além de muito bem escrito, texto saboro e impecável.

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    1. Cômico e com base na ironia. Você pegou a essência, Val.

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