terça-feira, 8 de outubro de 2013

Janelas


Ele passava em frente à casa e enquanto passava ia admirando a fachada. Em dias de sol ficavam ainda mais vibrantes suas cores e haveria de haver mais alegria
também lá dentro, deduzia.
Incrível como a fachada de uma casa pudesse lhe exercer tanto fascínio! ele pensava. Do outro lado da rua, por onde sempre passava, fitava as janelas e através das cortinas translúcidas vislumbrava o que seria aquele movimento, dia festivo, dia sereno, que ele pressentia existir.
Passava o tempo e ele passava ao largo, somente. E ia vivendo o aumento de uma dúvida, "me aproximo ou não?". Mesmo sem atravessar a rua, sentia-se seguidamente atraído a colocar a cabeça por sobre a soleira da janela mais próxima, para ver o que de fato acontecia lá dentro, mas logo depois decidia por desistir. À sua frente havia sempre algo o esperando. Andava sempre a passar apressado. "Talvez amanhã..." hesitava.
A curiosidade começava a transformar-se em inimiga, tirando-lhe aos poucos a paz que o acompanhava.
A fachada ia se desgastando com a ação do tempo, assim como as cores vivas dos primeiros dias. Ainda que estivessem todas em sua memória, seria provável que em alguns anos ela também desbotasse.
A dúvida, somada agora ao receio de que todo o panorama alegre se esvaísse, o fez romper a própria resistência e violentar sua rotina certa e desprezar as horas que lhe clamavam por urgência.
Aproximou-se.
O cimento e a madeira transformavam-se, à medida em que se acercava, em tecidos vivos; cabelos iam crescendo no lugar das telhas; as janelas eram agora dois grandes olhos com suas íris límpidas e pupilas dilatadas.
Olhou para dentro e foi tragado. Aquele ser estranhamente íntimo chamava-se Theodoro. O mesmo que passava ao largo, apressado.

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